O mecanismo de Anticítera: o computador do mundo antigo

Fase 01 · Episódio 1.5 · séc. II – I a.C.
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Na Páscoa de 1900, um grupo de mergulhadores de esponjas da ilha grega de Symi se abrigava de uma tempestade perto de Anticítera, uma ilhota entre Creta e o Peloponeso. Quando o tempo melhorou, um deles desceu ao fundo do mar e voltou assustado, falando em corpos espalhados pela areia. Eram estátuas. Os mergulhadores tinham encontrado os restos de um navio romano que naufragara por volta de 70 a.C., carregado de tesouros gregos.

Entre bronzes, mármores e moedas, saíram do mar alguns pedaços de bronze corroído que ninguém levou muito a sério. Só em 1902 o arqueólogo Valerios Stais percebeu, num deles, algo que não deveria existir na Antiguidade: uma engrenagem.

Reconstrução do Mecanismo de Anticítera com engrenagens utilizadas para cálculos astronômicos.

Um quebra-cabeça de bronze

O que se conhece hoje do mecanismo são 82 fragmentos. Reunidos, eles revelam um aparelho do tamanho de uma caixa de sapatos, com uma caixa de madeira, mostradores na frente e atrás, uma manivela lateral e pelo menos trinta engrenagens de bronze, algumas com dentes de pouco mais de um milímetro. A data de fabricação ainda é discutida, mas a maioria dos estudos aponta para o século II ou I antes de Cristo.

Por décadas, o objeto foi um mistério. Nos anos 1950, o historiador da ciência Derek de Solla Price começou a estudá-lo com radiografias e, em 1974, publicou Gears from the Greeks, a primeira reconstrução séria do funcionamento. O grande salto veio em 2005, quando o Projeto de Pesquisa do Mecanismo de Anticítera usou tomografia computadorizada de alta resolução para enxergar o interior dos fragmentos. As imagens revelaram engrenagens escondidas e milhares de caracteres de texto gravados no bronze, uma espécie de manual de instruções.

O que ele calculava

Girando a manivela, o usuário escolhia uma data. As engrenagens faziam o resto. Os ponteiros mostravam a posição do Sol e da Lua no zodíaco, e uma pequena esfera meio prateada, meio escura, girava para indicar a fase da Lua. No mostrador de trás, espirais registravam ciclos longos: o ciclo metônico, em que 19 anos solares correspondem quase exatamente a 235 meses lunares, e o ciclo de Saros, usado para prever eclipses do Sol e da Lua. Um mostrador menor indicava até o ano dos jogos pan-helênicos, entre eles os Jogos Olímpicos.

O detalhe mais impressionante está na Lua. Os gregos sabiam que ela não se move pelo céu em velocidade constante: às vezes parece acelerar, às vezes desacelerar. O mecanismo reproduz essa variação com um truque engenhoso: duas engrenagens montadas em eixos ligeiramente desalinhados, ligadas por um pino que desliza num encaixe. O resultado é um movimento irregular que imita a teoria astronômica da época. Uma teoria matemática transformada em metal.

Nada parecido nos mil anos seguintes

O que torna Anticítera tão intrigante é o vazio que vem depois dele. Não se conhece nenhum outro objeto com engrenagens dessa complexidade até os relógios astronômicos da Europa medieval, mais de mil anos mais tarde. Textos antigos, como os de Cícero, mencionam esferas mecânicas que mostravam o movimento dos astros, o que sugere que o mecanismo não era um caso isolado, mas parte de uma tradição técnica que se perdeu. Quem o construiu, e para quem, continua sem resposta.

Por que ele é chamado de computador

Chamar o mecanismo de Anticítera de computador não é exagero de manchete. Ele é um computador analógico: em vez de representar quantidades com dígitos, como fazem os computadores digitais, ele as representa com grandezas físicas, no caso os ângulos de rotação das engrenagens. Cada proporção entre números de dentes corresponde a uma relação entre ciclos astronômicos. O cálculo acontece por imitação física do fenômeno.

E ele tem os mesmos elementos de qualquer computador. A manivela é a entrada: uma data. Os mostradores são a saída: posições, fases, eclipses. E as engrenagens são o programa, só que um programa gravado no próprio hardware, impossível de alterar sem refazer as peças. Os computadores eletrônicos do século XX levaram justamente a esse ponto de virada: separar o programa da máquina, para que a mesma máquina pudesse fazer qualquer coisa. Mas essa história ainda está longe.

Computadores analógicos não ficaram no passado remoto. Até meados do século XX, máquinas de engrenagens e circuitos elétricos analógicos calculavam marés, trajetórias de projéteis e equações de engenharia, antes de serem substituídas pelos digitais.

Do mecanismo à palma da mão

O mecanismo de Anticítera era uma peça rara, cara e complexa. Mas a ideia de representar o céu num objeto para fazer cálculos teve uma versão muito mais simples, portátil e duradoura, que acompanhou astrônomos e navegadores por mais de mil anos.

É o tema do próximo episódio: o astrolábio, o instrumento analógico que cabia na palma da mão.

Para saber mais

Jo Marchant, Decoding the Heavens. A história completa da descoberta e da decifração do mecanismo, contada como uma investigação científica.
Derek de Solla Price, Gears from the Greeks. O estudo pioneiro de 1974 que revelou o mecanismo como um calculador astronômico.
Museu Arqueológico Nacional de Atenas, onde os fragmentos originais estão expostos.

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